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    Data: 26/10/17  às 22:50      

Por Eugênio Bucci: Em defesa da telenovela




O furor conservador – horror opressor – que vai dominando o imaginário nacional deu agora de atacar também as novelas de televisão. A pretexto de defender os bons costumes da família brasileira, os moralistas investem contra esse que é um dos pilares mais tradicionais dos costumes domésticos no Brasil: a novela das 9. Na opinião deles, a ficção de TV aderiu a causas que desestabilizam a castidade pátria, promovendo o elogio a pessoas trans e a glamourização dos bandidos que traficam drogas.

Esses guardiões da impoluta conduta batuta olham para a tela eletrônica e lançam seu brado: “É o fim dos tempos!”. Não se dão conta de que o “fim dos tempos” são eles próprios: com sua histeria supostamente moralizadora, desfilam como a comissão de frente das trevas. Eles não sabem, mas o mundo que querem proteger não encontrará sua morte na lascívia, mas na escuridão – escuridão da qual eles são os novos profetas.

Realmente, o fim dos tempos. Até a patrulha ideológica, que antes era um mal de esquerda, se bandeou para a direita. Desfilam por aí os patrulheiros que se declaram “liberais” – mas no fundo são fascistas – e os patrulheiros que se declaram convertidos às maravilhas do big data e da inteligência artificial – mas desejam uma solução autoritária para corrigir os erros da democracia.

Todos vociferem contra a telenovela em meio a uma turba virtual e ruidosa que inclui pregadores da “cura gay”, fetichistas das armas de fogo e outras variantes impublicáveis. Vivemos tempos, de fato e de direito, tenebrosos. O fim dos tempos é o fim do já precário prestígio da liberdade.

Essa aversão conservadora à ficção de TV ficou mais evidente no final da semana passada, quando a Globo exibiu o último capítulo de A Força do Querer, com expressivos índices de audiência. Sobre a personagem que era moça e decidiu virar homem – homem trans –, e para isso se valeu de injeções de hormônio e mais uma cirurgia para a remoção dos seios, a grita veio das falanges dedicadas à vigilância da libido alheia. Até aí, normal. Isso sempre foi assim, nada de novo sob o Sol. Desde sua origem, em 1951, os autores de novelas se batem contra limites do puritanismo.

O beijo na boca já foi considerado um ultraje, assim como a minissaia, as cenas de adultério, o “selinho” gay, etc. O puritanismo perdeu todas. Passo a passo, milímetro a milímetro, a telenovela contribuiu para reduzir as tensões da repressão sexual e para reduzir, principalmente, a intolerância. O País ficou melhor.

O que preocupa, enfim, não é o moralismo sexual, quase pulsional, que sempre esteve aí e sempre vai estar. Mais preocupantes são os argumentos supostamente racionais, ou mesmo intelectuais, que, a pretexto de monitorar a função educativa da telenovela, pretendem restringir, com uma axiologia disfarçada de boas intenções, o exíguo campo de liberdade a partir do qual essa modalidade de arte vem conseguindo tematizar os traços mais sensíveis do tempo, da cultura e da sociedade.

No fundo, esses argumentos querem rebaixar os meios de comunicação, todos eles, a uma escola de boas maneiras, ou, em termos menos vagos, a uma imensa escolinha do professor Raimundo sem as piadas politicamente incorretas, ou seja, um imenso nada. Essa escolinha de educação moral, sexual e cívica seria o cemitério dos artistas e, desde já, paira como um presságio asfixiante sobre a ordem democrática.

Em que consiste a alegação de que A Força do Querer glamourizou a rotina de crimes em que vivem os traficantes de droga? Num sofisma traiçoeiro. Para os inimigos dessa novela, o tratamento estético dado às personagens envolvidas no tráfico convidaria os telespectadores a se identificarem afetivamente com agentes do crime.

Segundo eles, essa identificação fará mal aos adolescentes e especialmente às crianças. Logo, qual seria a solução? A resposta, para eles, é óbvia: a solução seria dar glamour apenas para a polícia e reservar aos bandidos a imagem de párias sem carisma e sem sex appeal. Simples, não é mesmo?

Se fôssemos seguir esse tipo de “critério” estético, deveríamos banir das bibliotecas 80% das tragédias gregas e expulsar dos cinemas toda a obra de Stanley Kubrick – especialmente 2001, uma Odisseia no Espaço, pois os adolescentes poderiam cair na tentação de se identificar com o computador. A série de O Poderoso Chefão estaria para sempre censurada.

Esse critério é simplesmente uma doidice, mas é uma doidice contagiosa. Para refutá-lo recuperemos um pouco da história da televisão. Pelo menos desde os anos 1960 tem havido mais fragmentos de realidade na novela das 9 do que no telejornal. Em Beto Rockfeller havia cenas de rua.

Em O Rei do Gado havia a mocinha que era sem-terra. Agora mesmo foi assim: no Jornal Nacional o telespectador ouvia relatos de tiroteios nos morros, mas somente depois que começava A Força do Querer é que podia ver as cenas de violência no morro. Eram imagens de ficção, sem dúvida, mas o realismo contundente, o quase naturalismo da ambientação traziam diariamente, para dentro dos lares brasileiros, lâminas virtualmente autênticas dos morros dominados pelos traficantes.

Nesse ponto, a ficção desarma as visões inerciais de algumas das contradições mais eloquentes da atualidade: desprograma imobilismos mentais e joga luzes menos previsíveis sobre temas que o Brasil precisa enfrentar e resolver. Nesse ponto, enfim, a novela de televisão vai bem.

No mais, sejamos objetivos: o que glamouriza a criminalidade não é a Bibi Perigosa, pobrezinha, mas essas autoridades que, a despeito de suas gatunagens amplamente conhecidas, seguem controlando o poder. As telenovelas têm incontáveis defeitos – a miséria dos diálogos, os enredos repetitivos, as concessões desmesuradas ao merchandising – mas o excesso de liberdade não é um deles. Pelo bem da família brasileira, defendamos essa pequena liberdade e seu tênue fio de ousadia.

Jornalista, escritor e  professor da ECA-USP

 

 

















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